quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Projeto Praias Boraris, em Alter do Chão, alia ciência e conhecimento tradicional!!!

"Objetivo é fomentar o turismo sustentável envolvendo comunitários e indígenas Borari"


Promover a conservação da vegetação das praias do lago Verde, na vila de Alter do Chão, a 35 km da cidade de Santarém, a partir do mapeamento participativo florístico e etnobotânico, é um dos objetivos do projeto da Ufopa “Praias Amazônicas Boraris: Juventude indígena pela valorização da vegetação de praia do Lago Verde dos Muiraquitãs de Alter do Chão no Pará”.

Coordenado pelo professor Thiago de Carvalho André, do Instituto de Ciências e Tecnologia das Águas (ICTA), com a participação de uma equipe multidisciplinar de professores, o projeto prevê também aliar o conhecimento científico e o tradicional. “Vamos trabalhar tentando estabelecer um elo entre o conhecimento tradicional, a educação, o conhecimento científico e a promoção social e, por isso, todos os nossos bolsistas são universitários, que além de moradores da vila são descendentes Borari”, afirma o coordenador do projeto.
“O projeto de extensão Praias Amazônicas Boraris vai envolver docentes da área de Botânica e Ecologia da Ufopa, além da comunidade indígena Borari que reside na vila na execução do mapeamento, identificação, levantamento florístico e etnobotânico das espécies de plantas das praias do lago verde”, afirma o coordenador.
A grandeza do nome do projeto se confunde com o objetivo ousado, que, além da taxonomia de plantas nativas ao redor do lago Verde, prevê a publicação de um guia botânico para incentivar o turismo de observação, na vila de Alter do Chão. Essa é uma modalidade ainda pouco difundida no Brasil, mas muito apreciada em países como Estados Unidos e Inglaterra.


Um aspecto muito importante das ações contempla a promoção da formação do jovem e de jovens lideranças para a sustentabilidade socioambiental, com participação em fóruns deliberativos locais. Dessa forma, as ações do projeto também incluem educação ambiental com a capacitação de guias turísticos.
A professora Amanda Mortati ficará responsável por esta parte do trabalho. Ela explica como se dará a interação com a comunidade: “A ideia é que com os produtos finais do projeto - em termos de identificação de espécies e conscientização a respeito do potencial dessa informação para o turismo - possamos oferecer, ao turista que busca apreciar a beleza cênica e a cultura do local, essas informações para que ele seja mais incentivado a buscar este outro tipo de turismo na vila, ao invés de apenas explorar a praia. Isso pode vir a preservar os recursos naturais e consequentemente a cultura local em Alter do Chão”, afirma.
“Espera-se que, com a valorização da vegetação das praias, agentes de turismo, turistas e comunidade da vila promovam e fiscalizem a conservação das praias. Atualmente, há uma grande pressão sobre a vegetação da praia, com muitos loteamentos e empreendimentos hoteleiros, especialmente, mas não somente, nas regiões de savana e na APA de Alter do Chão, e a urbanização do centro da vila, acarretando prejuízos ambientais ao ecossistema, que podem potencialmente vir a reduzir justamente o maior atrativo turístico e base econômica da comunidade”, prevê o texto do projeto.
 Objetivo do Projeto – O professor Leandro Lacerda (ICTA) ressalta os dois principais objetivos do projeto. “Um deles é fomentar o turismo sustentável por meio do trabalho dos próprios comunitários Borari, o que envolve principalmente os catraieiros (condutores de embarcações a remo). O outro objetivo é preservar a vegetação das praias, mantendo-a em pé, e para isso nós precisamos dar valor a essa vegetação. Na verdade esse valor já existe, a comunidade já utiliza essa vegetação. O que a gente vai fazer é mostrar, para quem está de fora, que valor é esse, além da sua importância biológica”.
O professor informa ainda que para alcançar esse objetivo serão executadas pelo menos quatro fases do projeto. Atualmente está sendo executado o inventário das plantas por meio de coletas com os alunos da Ufopa e também por integrantes da comunidade. Em seguida passaremos à fase de identificação botânica. A partir daí, esses dados levantados serão levados para a comunidade e comparados com o conhecimento que eles têm. As ações serão desenvolvidas de forma conjunta com a comunidade, sempre respeitando o conhecimento deles e o objetivo é entender como esse conhecimento científico se relaciona com o conhecimento tradicional”.
O produto final, ou seja, o guia botânico não vai conter apenas informações de plantas e das praias. “A ideia é que o nosso produto final traga tanto o nome científico das plantas como também de que forma essas plantas são utilizadas pela comunidade. A expectativa é que esse guia se torne um atrativo para os turistas, mas além disso alerte para que eles (os turistas) enxerguem a importância dessas plantas estarem ali, que é manter a praia saudável e também serem utilizadas pelos moradores que vivem naquelas comunidades. Com isso, esperamos fomentar esse ciclo de turismo de forma sustentável”, conclui Leandro.


Sobre Alter do Chão 

As praias de areia branca e água doce e cristalina do rio Tapajós na vila de Alter do Chão já foram eleitas as mais belas praias do Brasil. A vila é um distrito da cidade de Santarém e os atuais habitantes são na sua maioria descendentes de indígenas Borari.
Por meio do Decreto Lei nº 17.771/2003 foi criada a Área de Proteção Ambiental (APA) de Alter do Chão, que compreende uma área de 16.180 hectares, cujo objetivo é ordenar a ocupação das terras de modo a promover a proteção da diversidade biológica, dos recursos hídricos, do patrimônio natural, com vistas a assegurar o caráter sustentável da ação antrópica na região. O Conselho Comunitário da Vila elaborou, em 2012, um plano de uso que não foi efetivamente colocado em prática. Neste plano de uso, a conservação da vegetação e das culturas tradicionais locais é o mecanismo explícito para a manutenção da qualidade de vida, dos serviços ambientais e da vocação ecoturística da vila. “Infelizmente, as áreas de preservação permanente dos igarapés que desembocam no lago Verde e  região, além das áreas de várzea das praias, têm sido degradadas intensivamente pelo uso e ocupação desordenados e irresponsáveis do espaço”, alerta o projeto.
“Espera-se que a presente proposta sirva de elo entre o conhecimento tradicional, a educação e o conhecimento científico, e incentive claramente a valorização da manutenção da vegetação ciliar do lago Verde, produzindo a força motriz necessária para que a conservação do meio ambiente seja praticada efetivamente na vila de Alter do Chão, em especial pela comunidade que ali reside”.
Lenne Santos - Comunicação/Ufopa

Fotos Roberto Santos/ Via Amazônia

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