terça-feira, 20 de outubro de 2015

Boto-cor-de-rosa usado como isca, sofre risco de extinção

Os pescadores preferem usar o Boto como isca, porque sua carne tem mais gordura e um cheiro forte e característico. 


O vulnerável boto-cor-de-rosa do Amazonas, uma das poucas e principais espécies de Boto do mundo, está correndo risco de extinção ainda maior por seu uso como isca de carne para a pesca de uma espécie de qualidade inferior, de baixo valor comercial.
O alerta é da bióloga Sannie Brum, pesquisadora do Instituto Piagaçu (IPI) e que estudou os hábitos de 35 comunidades pesqueiras no rio Purus, no Amazonas.




Segundo seu estudo, os moradores da região matam anualmente até 144 Botos-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) por ano, número superior a qualquer limite seguro que garanta sua sobrevivência, para usá-los como ceva na pesca da piracatinga (Calophysus macropterus), um peixe necrófago conhecido como urubu d'água.
"Chegamos a esse cálculo depois que nos informaram que os pescadores extraem da região cerca de 15 toneladas de piracatinga por ano e que 90% da isca que utilizam é carne de golfinho rosado", disse a bióloga à Agência Efe.
De acordo com a pesquisadora, como a piracatinga se alimenta de carne podre, os pescadores utilizam como ceva pedaços de peixes com muito gordura e até jacarés.
Os pescadores preferem usar o Boto como ceva porque sua carne tem mais gordura e um cheiro forte e característico que atrai a piracatinga e, como sua pesca está proibida, não podem vendê-lo no mercado, explicou a bióloga.
O jacaré tem maior valor comercial para o pescador, que pode aproveitar tanto sua carne como seu couro, por isso é menos viável como isca, acrescentou a colaboradora da Associação de Amigos do Peixe-Boi (Ampa).
"O cálculo que fizemos se refere exclusivamente à parte baixa do rio Purus, que é uma área de proteção ambiental, mas temos informações de que a prática se estende ao longo do rio, por isso o atual volume de pesca de piracatinga exigiria o sacrifício de cerca de 500 botos por ano apenas nessa região", segundo Sannie, cujo estudo foi financiado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.
"Outros estudos nos permitem dizer que 1.600 botos são usados por ano para a pesca de piracatinga pelos pescadores de Tefé, no rio Solimões, e que o número chega a 2.500 em toda a região de Manaus. São números que assustam para uma espécie considerada vulnerável", comentou.
Segundo a bióloga, o pior é que esse extermínio de botos tem como único objetivo a captura de um peixe com pouco valor comercial, e que é vendido em filés, principalmente na Colômbia, com outros nomes.
"Os pescadores o exploram porque é uma espécie de grande tamanho e alta produtividade, mas os moradores da região o desprezam porque sabem que se alimenta de carne podre", ressaltou.
A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) ainda não classifica o Boto-cor-de-rosa como ameaçado de extinção por ser uma espécie da qual se tem "dados insuficientes", mas as autoridades brasileiras o classificam como "vulnerável". A maioria dos países amazônicos proibiu sua pesca e tem projetos de proteger a espécie, mas nenhum país da região tem dados sobre sua população. 
No ano de 2012, uma expedição realizada por cientistas colombianos e brasileiros ao longo de 500 quilômetros dos rios Piagaçu e Purus contabilizou 2.168 exemplares do Boto  dos quais 1.640 da espécie tucuxi (Sotalia fluviatilis) e apenas 528 do rosado.
informações; TERRA


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