quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Exército e PF descobrem rede de contrabando de animais silvestres que movimenta R$ 3 bi ao ano

A atividade clandestina atinge de forma negativa o ecossistema da Amazônia, e perde apenas do tráfico de armas e de drogas

Aves raras estão entre as mais cobiçadas pelos foras da Lei.

Um dos mais lucrativos comércios ilegais do mundo é o tráfico de animais silvestres. A atividade clandestina, além de atingir de forma negativa todo ecossistema da Amazônia, traz graves consequências de ordem social e econômica, movimentando em torno de R$ 3 bilhões por ano só no Brasil, atrás apenas do tráfico de armas e de drogas.

A estimativa é da Organização Não Governamental (ONG) Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), que aponta que a movimentação do comércio clandestino pode chegar a 38 milhões de animais silvestres capturados de seus habitats naturais e exportados, principalmente, para países europeus e asiáticos.
Para se ter uma ideia do movimento da atividade, um grama de veneno de cobra chega a custar cinco vezes mais que um grama de ouro, e uma cobra contrabandeada pode custar entre 1,5 mil a 4,5 mil dólares.
Na “Operação Ágata”, desencadeada pelo Exército Brasileiro com o apoio da Polícia Federal, iniciada na última semana, uma rede de contrabando de animais silvestre foi descoberta. Ainda não há detalhes sobre  a atuação da rede criminosa no Estado, mas há indícios de que possa ser uma das maiores em atuação. De acordo com o general Guilherme Theóphilo Gaspar, responsável pelo Comando Militar da Amazônia (CMA), o relatório completo das ações da operação Ágata chegará a ele no decorrer da semana. Tão logo, o documento seja analisado pelo comandante, os detalhes pertinentes à suposta quadrilha  serão  divulgados, caso não venham a embaraçar outras ações em andamento. 

Tráfico dos animais 
Segundo o relatório publicado pela Renctas, 60% dos animais comercializados ilegalmente são para consumo interno, o chamado tráfico doméstico. Seguem para destinos internacionais 40% dos animais retirados da fauna brasileira, principalmente da região amazônica, onde quadrilhas estão diariamente empenhadas no contrabando de animais.
De acordo com agentes fiscalizadores do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Amazonas,  após capturados, os animais são submetidos a várias práticas agressivas durante o transporte para os centros consumidores. O papagaio, por exemplo, é sedado e escondido em tubos de PVC, no fundo de malas, e as cobras são presas em meias de nylon, entre outros métodos cruéis.
O transporte ilegal de animais ocorre principalmente por via fluvial e tem como destino de parte das espécies desde a utilização pela indústria farmacêutica até a comercialização com colecionadores.
Punição aos infratores 
A Lei Ambiental 9.605/98 e Decreto n° 3.179/99, artigo 29,  impõe as sanções para os traficantes e infratores, com detenção de seis meses a um ano, e multa para quem transportar ou comercializar animais silvestres sem a devida permissão.
Autoridades combatem com rigor o tráfico de animais na Amazônia

Cobras estão entre as mais valorizadas
Além da cobra, cuja espécie é bastante valorizada no comércio ilegal, papagaios, araras, periquitos e tucanos são as principais espécies de animais silvestres da Amazônia contrabandeados para Estados das regiões Sul e Sudeste do País e até para o exterior. Segundo a ONG Renctas, as aves são as espécies preferidas pelo tráfico, chegando a 82%.
Geandro Pantoja Superintendente substituto do Ibama-AM
O tráfico de animais silvestres infelizmente ainda é muito recorrente no Amazonas. As espécies mais visadas são os quelônios (tartaruga, tracajá e iaçá), com maior intensidade nos municípios de Manacapuru e Manaus, onde o mercado consumidor é bastante atrativo para os traficantes dessas espécies. Existem também as rotas internacionais de contrabando de borboletas, pássaros e peixes para uso ornamental, como o aruanã e cascudo zebra. Vale ressatar que o  Ibama do Amazonas vem intensificando as ações fiscalizatórias e levantamentos de inteligência, inclusive em ambientes virtuais, através de parcerias com a Superintendência da Polícia Federal, Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Receita Federal e Batalhão Ambiental. Estamos atentos e temos interceptado diversas rotas com destino à Colômbia e à Europa. No entanto, é preciso também que o cidadão colabore, pois o tráfico existe porque tem demanda”.  
Peixes ornamentais na ‘rota’
O chefe do Estado Maior do Comando Militar da Amazônia (CMA), general Ubiratan Poty, revelou que, durante a operação Ágata, que encerrou na última quinta-feira, foi apreendida uma grande quantidade de peixes ornamentais, capturados no Município de Codajás (a 240 quilômetros de Manaus) e vendidos a centavos no Brasil, para depois serem contrabandeados e vendidos no mercado negro, em dólar.
“O tráfico de animais silvestres no Amazonas já é quase maior do que o de drogas”, disse o general. De acordo com ele, a biodiversidade é enorme tem um alto valor em outros países.  São espécies de animais e plantas, muitos objetos de pesquisas que podem resultar em produtos para a cura de doenças que já existem e de outras que ainda vão aparecer, daí o interesse financeiro.
Durante a operação Ágata deste ano, segundo o general, foram presas pessoas que estavam transportando pequenos quelônios, além dos peixes ornamentais cujo destino era o mercado negro de tráfico de animais. “Eles (os animais) vão para Ásia, Europa e para os Estados Unidos”, disse.
O general Poty destacou o caso de uma serpente, retirada ilegalmente do Brasil pela fronteira com a Guiana, passando pela cidade de Bonfim, em Roraima. Por ser único no mundo, o animal foi avaliado em mais de R$ 3 milhões e os filhotes foram vendidos aos pares, a preços de variavam de R$ 78,5 mil a R$ 188,4 mil.
NÁFERSON CRUZ E JOANA QUEIROZ/ A CRITICA, MANAUS

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