quarta-feira, 18 de agosto de 2010

De Bicicleta pela Amazônia


Provavelmente o brilho no olhar foi o ingrediente que culminou com o convite pra escrever sobre bicicletas na Revista Via Amazônia. Aceito com muito gosto e felicidade pela equipe “10porhora”, publicamos nessa edição o nosso primeiro artigo e esperamos que você continue acompanhando as nossas pedaladas pelo mundo das letras. Começamos com a cicloviagem do sergipano Felippe Cesar, do projeto Pedais Pelo Mundo, que no mês de maio deu suas voltinhas por Santarém, Belterra e Alter do Chão.
Depois de nove meses fora de casa (Aracaju-Sergipe), o cicloativista e fotografo Felippe Cesar, chega a cidade de Santarém, porta de entrada para a sua viagem pela Amazônia. De cara, o numero de motociclistas, causa espanto. “Percebe-se o grande número de motocicletas, especialmente mototáxi, por todos os lados. O 'progresso', considerado por muitos, chegou aqui e quase não se vê ciclistas, uma pena, pois na minha concepção a bicicleta sim é sinônimo de desenvolvimento”.
Até o momento, Felippe já pedalou mais de 3,500km , passando por 10 estados brasileiros. A partir de agora a viagem dará uma atenção especial à Amazônia, percorrendo regiões como Boa Vista (Roraima), Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa e Macapá. Em seguida, volta para Manaus de barco e de lá vai pedalando para Porto Velho e Rio Branco, cruzando as fronteiras do país com destino ao Peru.
Com o Projeto Pedais pelo Mundo, Felippe pretende contribuir para uma sociedade mais sustentável, destacando principalmente a importância de mudarmos pequenos atos. Substituir o carro pela bicicleta para percorrer pequenos trajetos podem significar, além da melhoria de qualidade de vida, um transito mais gentil e uma cidade mais limpa. Para o cicloativista, que também é arquiteto urbano, Santarém 'leva jeito' para o uso da bicicleta. “Com poucos ajustes no desenho viário, sinalização e educação de trânsito, pedalar seria uma opção de deslocamento para a população, contribuindo para redução do ruído urbano, poluição e também ira proporcionar uma interação entre cidade e pessoas'. De Santarém, Felippe Cesar seguiu para Alter do Chão e Belterra, onde fez palestras com crianças do Ponto de Cultura da Oca e Telecentro de Belterra. E claro, um mergulho no Tapajós – porque ciclista nenhum é de ferro.

A bicicleta proporciona uma forma intensa de perceber o ambiente por causa das suas características de baixa velocidade, ausência de barulho do motor e trabalho físico do corpo. Por essas razões ela é a menina dos olhos do Projeto 10porhora que apóia, além do uso da magrela no nosso dia a dia, a prática de atitudes responsáveis e equilibradas em relação ao meio ambiente que nos cerca. Os integrantes do projeto têm como base para o princípio de suas atitudes a Carta da Terra, que aponta alternativas para o futuro do planeta e de sua comunidade de vida. Acreditamos ainda que “a sustentabilidade, ao contrário do que muita gente pensa, não é mais um modelo de organização de sociedades como o capitalismo e o comunismo. Não se trata de algo construído por determinados grupos de pessoas, mas sim um novo entendimento que está surgindo dentro das pessoas, pois estão compreendendo a necessidade de construir um novo futuro”*
A busca por uma vida no ritmo 10porhora nos proporciona a condição de conhecer melhor nossas cidades, riquezas, pontos turísticos e o próprio limite do nosso corpo. Enquanto muitos buscam justificativas para deixar a bicicleta na garagem e sair de carro, outros pedalam para o trabalho, faculdade e pelas redondezas. Muitos vão além e fazem viagens pra cidades próximas e existem até aqueles que sonham em conhecer o mundo pedalando. Ingrediente? Força de vontade. Bicicleteiro que é bicicleteiro tem força de vontade e acredita em um mundo melhor.
Em pouco tempo de existência o Projeto 10porhora já conheceu muita gente que trocou o conforto do carro para pedalar pela cidade e até viagens maiores. Como o casal argentino Pablo e Inês que fizeram uma cicloviagem saindo da Argentina, passando pela Bolívia e Amazônia brasileira até a cidade de Cuiabá (MT). Recebeu ainda em Santarém os cicloviajantes Felippe César do Projeto Pedais Pelo Mundo e Argus Caruso, do Pedalando e Educando, que, depois de fazer uma viagem de bicicleta pelo mundo entre os anos de 2001 e 2005, viajou pelas regiões Norte e Nordeste, levando em frente a sua idéia de Escola do Mundo sobre duas rodas. Mas o 10porhora também já aprontou das suas. Em 2009 fez uma cicloviagem pela Transpantaneira (MT). Seus integrantes saíram de Poconé com destino a Porto Jofre. Mas a chuva e as condições da estrada não permitiram a conclusão da viagem. Esse ano, no mês de setembro, os integrantes do 10porhora pretendem fazer novamente a Transpantaneira, que é a estrada com o maior número de pontes do mundo. E você vai acompanhar tudo aqui na Revista Via Amazônia. Fizemos uma outra viagem até a cidade de Berão de Melgaço, talvez a mais pantaneira de Mato Grosso e que ainda hoje vive da pesca, fruticultura, agricultura, pecuária e turismo.
Adotamos a bicicleta porque ela não tem teto, janelas ou o barulho do motor que nos distanciem do seu entorno. Ela nos obriga, de forma prazerosa, a sentir a neblina do amanhecer, o calor do meio dia, a chuva da tarde e o frio da noite; a ver o relevo, a fauna, a flora e as pessoas; a ouvir os rios, os pássaros, as músicas dos quintais e os centros das cidades; a degustar a poeira da estrada, o suor do rosto, o pastel da venda, o feijão feito na hora e a carne de panela bem temperada. É isso que propõe o 10porhora: uma vida menos acelerada. Por isso, o projeto é formado por aqueles que acreditam numa vida em harmonia com o meio ambiente e por quem trabalha para vivermos melhor e no ritmo 10porhora.
O Projeto 10/Hora nasceu da motivação de seus integrantes em contribuir para a construção de sociedades sustentáveis. A partir de uma pesquisa sobre percepções ambientais de pessoas que viajaram de bicicleta pela Estrada Real (Minas Gerais) surgiu a constatação de que este veículo proporciona uma forma intensa e muito rica de perceber as paisagens e as culturas. Essa percepção fortaleceu e deu impulso a realização do projeto. E essa harmonia entre o homem e a natureza acontece também com outros transportes de baixa velocidade que contribuem para a construção de cidades mais pacíficas e para a qualidade de vida das pessoas. Com integrantes em Santarém (PA), Cuiabá (MT) e Brasilia (DF) o projeto vem crescendo diariamente e agregando cada vez mais novos apaixonados por bicicletas e outros meios de transportes de baixa velocidade.
O Projeto 10porhora também está na rede. Acesse o nosso site http://dezporhora.org/ e siga também o nosso twitter @10porhora. Mande dicas de lugares pra conhecermos de bicicleta pela região através do nosso email dezporhora@gmail.com.

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